terça-feira, 1 de setembro de 2026

Carioca, o galo da ternura

Para quem diz que "os galos são agressivos", "os galos não servem para nada senão para cabidela", partilho dois momentos, de muitos outros, passados com o meu doce Carioca. 

Por norma, o Carioca recusa-se a ir até ao fundo do terreno, por mais que o incentive, ele chega a um ponto que volta sempre para trás.  

Um dia destes, quando eu desopilava no fundo do quintal, entregando ao vento, as tristezas causadas por uma sociedade cada vez mais egoísta e cruel, o Carioca não só chamou por mim sem parar, como veio ter comigo ao fundo de terreno, percebendo que eu não estava bem. Não saiu da minha beira, enquanto eu não voltei para junto dos meus penudinhos, que se deitaram à minha volta e até debaixo da minha cadeira de rodas, a fazer a sesta, num momento de cumplicidade, ternura e uma paz indescritível. 

Tanto o Carioca como os restantes penudinhos perceberam que naquele momento eu precisava exatamente disso, paz e amor. E eles não precisam de palavras, nem de coisas complicadas para me darem o que preciso. Fazem-no com amor puro e com o sábio silêncio repleto de cumplicidade e ternura refletida nos seus olhares. 

É impossível não ver a ternura no olhar do Carioca e, o seu canto é tão meigo, que por vezes até parece melancólico.  

Não é de festas, mas quer estar sempre ao meu lado e adora adormecer, enquanto lhe canto baixinho.  Espera pacientemente que eu consiga apanhar as uvas para lhe dar, comendo-as da minha mão com toda a delicadeza. 

Não, não lhe ensinei nada, o Carioca, assim como os outros penudinhos, faz tudo espontaneamente. Os meus penudinhos têm a sensibilidade que é cada vez mais rara nos ditos "racionais". 

Noutro dia, o Carioca apanhou um raminho seco e veio oferecer-mo. Há palavras para isso? 


Carioca | foto de Rita Micaelo, 16/8/2026



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