Faz hoje oito dias que me despedi do meu coraçãozinho dourado, Sherlock Holmes.
O Sherlock Holmes era um galo lindo, com a maior e mais vermelha crista de todos os galos. Tinha o dom de falar connosco, era um galo amoroso que andava sempre atrás de mim como um guardião, tal como se refugiava em mim quando se sentia assustado.
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| Sherlock e Feijoca |
Em março, perdeu o andar devido a um vírus, algo que poderia ter sido evitado, se tivesse sido medicado logo no início da doença. Tentamos um veterinário, mas salvo raras exceções, nenhum trata galinha, por "não ser rentável". "Faça uma canjinha ou cabidela com ele", foram as respostas e comentários que fui ouvindo. Sem termos a quem recorrer, eu e a minha mãe não desistimos do Sherlock, nem da Feijoca que também se encontra na mesma situação há cinco meses, mas continua pronta para as curvas. Tanto um como o outro, eram todos os dias levados ao colo, pela minha mãe, do capoeiro, para o pomar, de modo a apanharem sol e a terem uma vida normal, mesmo com as suas limitações. A verdade é que foram recuperando e conquistando a sua forma de se movimentarem. O Sherlock voava de um lado a outro do pomar, num ápice, e até saltava em cima das galinhas! Passaram-se três meses e ele ia, devagarinho, fazendo os seus progressos e vivia feliz tal como era. Era um Romeu apaixonado e foi uma das suas grandes paixões, de tal modo que não se deixava levar para o capoeiro sem ela ir primeiro, estava sempre preocupado com ela. A Feijoca e a Cappuccinno foram as galinhas do seu coração.
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Último domingo do Sherlock, junto de todos os amigos que o viram crescer e não desistiram dele |
Infelizmente, sábado, reparei que o Sherlock estava muito fraco, mal aguentava os olhos abertos, mas ainda reagia, levantava a cabeça e tentava levantar-se. Passei a tarde com ele, a cantar-lhe baixinho e avisei a minha mãe. No entanto, ela não notou nada de especial, até porque de manhã, o Sherlock cantou bem alto. O que ela não imaginava era que aquele seria o seu último canto, pois no domingo (31/5/2026), apesar de ainda ter batido as asas, quando o pegou para o pôr no pomar, o Sherlock já mal segurava a cabeça. Ainda demos medicação para gogo, mas Sherlock, apesar de se agarrar à vida até ao último segundo, ficou cada vez mais fraco. O coração já não aguentaria mais do que aquele domingo rodeado por todos o que os viram crescer e não desistiram dele. Partiu tranquilo, durante a noite, na sua suite particular, sempre com mesa posta e com os companheiros nas gaiolas ao lado. Nos dias seguintes, a maltinha de penas, andou triste e adoentada, olhando para a suite vazia do velho amigo.

O eterno Sherlock é um exemplo de amor e resiliência, a prova de é possível viver feliz mesmo com as limitações e de que o amor de animal nos alimenta muito mais do que qualquer iguaria gastronómica.
Sherlock é um exemplo de como o mundo será bem melhor com a empatia e respeito por todos os seres vivos, em vez de os olharmos como seres desprovidos de inteligência e sentimentos. As galinhas e galos galo são animais com muita sensibilidade, inteligentes e sociáveis, tem a capacidade de fazer sorrir espontaneamente quem cuida e se aproxima deles com o coração aberto. Fazem por nós aquilo que muitos humanos não são capazes .
Bem-hajas jovem galo Sherlock Holmes, descansa em paz no jardim das suculentas, junto ao pomar, onde viveste quase um ano, de muita alegria, amor e aprendizagem. "Cococó-cococó"! (Olá! Estás aí?)