terça-feira, 29 de setembro de 2026

Roberto e Branquinhas , os "inseparáveis e icónicos GNR da Quinta"

Branquinhas e Roberto 
8/8/2026
Já há algum tempo que os garnisés andavam muito mais calmos. No entanto, o Roberto começou a manifestar sinais preocupantes de doença, como diarreias, palidez e fraqueza, há oito dias. Demos-lhe antibiótico e vitaminas, que ele se esforçava para tomar, revelando ser um exemplo de doente exemplar que tudo faz para recuperar. Bastava dizer-lhe para beber o medicamento e comer, que ele fazia-o de imediato e muitas por iniciativa própria. 

O valente Roberto lutou até ao fim, com inteligência e garra, muita garra! No domingo de manhã ainda andou pela Avenida dos Galos, mas de tarde, passou a maior parte do tempo a dormir em pé, junto à figueira. Passámos todos a tarde com ele, eu e os Penudinhos que se deitaram todos à minha volta. O Carioca ainda lhe saltou em cima, mas levou logo comigo e com o Branquinhas que destemidamente defendeu o inseparável companheiro Roberto. Nessa noite, o Carioca dormiu sozinho para não incomodar o Roberto que já nem tinha forças para subir e dormir no poleiro, aceitando pela primeira vez o ninho, mas... sempre em pé!  No dia seguinte passou o tempo todo no ninho, mas ao fim do dia saiu para comer e aquecer-se pela última vez ao sol, mesmo sem sair do capoeiro. Deixei-o consolado a comer farinha para pintainhos e a beber soro caseiro (água morna, com uma colher rasa de açúcar e uma pitada de sal) ao qual a minha mãe acrescentou vitaminas próprias para galináceos. Ao vê-lo comer consulado ainda tive esperanças, mas na manhã de 29/9/2026,  o pequeno Roberto deitou-se, finalmente, no ninho, para o seu descanso eterno.. Que descanse em paz, pois, apesar de traquinas, era um garnisé terno e muito inteligente, tal como demonstrou durante a doença. 

Restam as memórias da sua energia interminável, que o meu tio até dizia que ele e o companheiro Branquinhas, davam a volta ao mundo num só dia, de tanto andarem para trás e para frente na Avenida dos Galos (daí a alcunha de "GNR") ; o seu Cocócorocóoo; o cantar ao desafio com o Branquinhas e os momentos cómicos em que um interrompia  abruptamente o canto do outro; o jogo "um-dois-três-estátua"  ou o jogo do sério em que ficavam imóveis a olhar um para o outro; a forma como se pegavam mas nunca se separavam, onde ia um iam outro e, impedidos de ir às galinhas, até acoplavam entre si, a forma com se protegiam e a forma como se tornaram figuram icónicas do capoeiro, logo desde início, principalmente o Roberto pelo seu ar patusco de desenho animado, o modo como se preocupavam e ficavam tristonhos quando alguém adoeciam, o olhar e jeito terno com que o Roberto procurava a minha proteção e companhia e a forma como compreendia tudo o que lhe dizíamos. Deixa sem dúvida muitas saudades, bonitas e engraçadíssimas histórias e, merecia ter tido tempo para muitas mais aventuras, mas a vida é o que tem de ser. Tentamos dar-lhe o melhor possível para que fosse feliz enquanto andou cá na quinta. Pelo menos amor e atenção não lhe faltou.  

Agora é ajudar o e Branquinhas a superar a ausência do seu inseparável amigo. São momentos difíceis para todos, mas, juntos, havemos de superá-los e a vida continuará, no capoeiro cada vez mais vazio e silencioso, mas sempre cheio de amor, ternura, aventura e muitas histórias para contar.


Entretanto os dois pintainhos Lua e Sol, com quinze dias, crescem saudáveis e cheios de vidas, ao cuidado da incansável garnija Pipoca Arrepiada. Se um for macho, a minha mãe quer rebatizá-lo de Roberto. Assim sendo teremos um Sol-Robertinho ou um Lua-Robertinhho. É justo, porque, mesmo doente o Roberto vigiou-os e fechou os olhos ao lado deles. Por enquanto, o
 importante é que continuem a crescer saudáveis e felizes. 



domingo, 27 de setembro de 2026

Quando os patos, afinal eram pintainhos

Na manhã de 8/9/2026, reparei que a patinha Micas passou o tempo todo debaixo dos arbustos da
Avenida dos Galos. Pensei que estivesse confortável, abrigada do calor, ou estivesse triste, chateada com alguma coisa. Passei a manhã por ali, dei-lhe folhas de videiras e pêra. Reparei também que recolhia palhinhas para pôr debaixo dela. Por momentos, suspeitei de um ninho, mas não dei importância, pois à tarde veio comer e tomar banho. No entanto, voltou para lá. Entretanto, à hora de recolher a minha mãe viu-se à nora para a tirar de lá. Foi quando viu o ninho muito bem feito

- Vê se tem ovo – disse eu à minha mãe.

- Não, não vejo ovo nenhum! – remungou – Patinha, tens que ir para dentro, senão a raposa come-te! O que te está a dar hoje?!

Tirava-a e ela voltava para trás, dizendo qualquer coisa que a minha mãe não estava a perceber. Acabou por pegar nela e levá-la à força para capoeiro. Observei-a algum tempo no capoeiro para ver se alguém ou alguma coisa a incomodava, mas estava tudo normal. Tinha de haver alguma razão para a patinha não quer sair do ninho que construiu. Fui lá outra vez e pedi para a minha mãe verificar melhor e... Sim, a pobrezinha tinha o ovo meio enterrado e estava a tentar dizer que o tinha de proteger. A minha mãe pegou no ovo e levou-o para o capoeiro, colocando-o no ninho.

-Era o teu ovinho que querias? Toma, anda para ninho.

 A patinha ficou contente e continuou-o a chocá-lo, em segurança, dentro do capoeiro.

No dia seguinte, ouvia-se a patinha a resmungar alto, o que não é comum. Quando a minha mãe foi ver, era a garnija que estava ninho da patinha porque também queria chocar o ovo. No entanto acabaram por criar um vínculo de proteção dos ovos, que entretanto aumentaram para três e mais... Porque enquanto a patinha saía para se alimentar e tomar banho,  as galinhas iam pôr ovos no ninho dela.

Todos os dias a minha mãe ia  pôr-lhe comida e água perto e pergunta-lhe:

- Tens ovos que não são teus?

A patinha levantava-se para mostrar os ovos das galinhas, deixava tirá-los e, com o bico empurrava os dela para debaixo das suas penas. Com passar do tempo, a presença da garnija passou a incomodá-la e pedia à minha mãe para tirá-la de lá. Entretanto, a garnija pôs um ovo e a minha mãe deixou-a ficar a chocar, para ver se deixa a pata em paz. Mas depois tirou-os novamente.  

- Se os ovos estiverem galados, em setembro, teremos pequerruchos engraçados.- pensava eu. 

Quando isso acontece, o importante é garantir a saúde da patinha e da garnija, verificando sempre que se alimentam e higienizam. 

Entretanto, passaram  os 35 de incubação, não nasceram patinhos e a pata Micas continuou a chocar pedindo para não lhe tirar os ovo. Mesmo que partisse o coração, para saúde da pata, teríamos de o fazer, aproveitando para desinfetar o capoeiro. 

Contudo, não foi feito nada disso e, para surpresa de todos (os humanos da quinta), entre 15 e 16 de setembro nasceram dois pintainhos, chocados secretamente pela garnija Pipoca Arrepiada.  

Como foi que a Pipoca Arrepiada escondeu os ovos 21 dias, será um mistério indesvendável.

Entretanto, já estava mais que na hora a Micas sair do choco e, por mais cruel que pareça, teve de ser à força, caso contrário, acabaria por adoecer. Tirámos-lhe os três ovos estragados e expulsámo-la do capoeiro, desfazendo-lhe completamente o ninho, Foi extremamente duro ver o desespero da Micas a pedir os ovos e a tentar entrar no capoeiro e andar atrás dos ovos. Por outro lado, foi magnífico ver como os outros animais se protegiam em vez de entrarem em confronto com ela, respeitando a sua dor de perda. Foi o dia todo nisso e quando a recolhemos ao fim do dia, ela não só  procurou pelo ovos, como pediu os pintainhos da garnija. Como muita infelicidade lá se acalmou e rapidamente reaprendeu a viver. 

Não se deve deixar chocar sem ter a certeza de os ovos estão fecundados, porque o choco deixa a pata muito fraca. Ao sétimo dia de choco, com ajuda de uma lanterna, devemos verificar se os ovos estão fecundados e, caso não estejam, tem que se tirar logo a pata do choco, para que volte à vida normal e se alimente corretamente.

No caso da Micas, deu bem a volta e no dia seguinte, já regressou quase ao normal, na companhia das outras patas que pacientemente a ajudaram. Se assim não fosse, já tinha ponderado comprar uns patinhos bebés para substituir os ovos. Mas se virassem machos, depois seriam mais uma dor de cabeça, embora os adorasse à mesma. O importante era que a Micas ficasse bem e recuperasse peso, pois descobrimos que durante o choco, ela acumulava o milho no ninho em vez de comer. Era também importante que tomasse banho, para arrefecer a barriga do choco e eliminar as hormonas, de modo a perder o instinto de estar sempre no ninho. Felizmente, correu tudo melhor e mais rápido do que o esperado.

Quanto aos pintainhos, estavam de boa saúde e tinham um espaço vedado, dentro do próprio capoeiro, para que pudessem comer e circular se ser perturbados pelos outros animais. Ao que nasceu no fim do dia 15/9/2026 chamei-lhe Lua e ao mais novo Sol. 
Mas nem tudo foram rosas, pois, no dia 18, a água entornou-se no ninho e o Sol quase se afogou. No entanto, a minha mãe chegou a tempo. Trouxe-o para casa, envolveu-o numa toalha e aqueceu-o ao sol, dentro de um caixa de sapatos. Depois de recuperado, devolveu o Sol à Pipoca que, depois de o ouvir piar e o ver comer, acolheu-o novamente. Enquanto esteve moribundo, rejeitou-por não ter como salvá-lo e ter de proteger o outro. Desde então a garnija rejeita palha e ninhos fechados, preferindo estar em cima saco do milho no chão. É uma mãe exemplar, sempre preocupada em ensinar e alimentar os pequeninos, dando-lhe até grão a grão o arroz e partindo os legumes em pedaços pequenos para que eles possam comer em segurança. É impossível não ficarmos encantados e olhar para a doce Pipoca Arrepiada e os seus pequerruchos. O Carioca é um dos que está sempre a espreitar os pequenotes. 

Mas quem são as mamãs e os papás biológicos das duas bolinhas fofinhas encantadoras?! Teremos de esperar que cresçam para ver se descobrimos parecenças. No entanto, mãe é aquela que cuida, e a Pipoca é uma mamã espetacular que vive para os dois pintainhos, sem se importar se são dela ou de outra galinha. 

Ah, e como podem ver no vídeo, tal como a pata, a garnija entende tudo o que a minha mãe lhe diz. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Búzio, a galinha pintada a aguarela

Este domingo (13/9/202) ,o capoeiro acordou mais vazio e o céu ganhou mais brilho com a partida da estrelinha Búzio que se juntou à constelação dos Penudinhos, à qual já pertencem  muitos inesquecíveis, como os franguinhos Segunda-feira, Terça-feira, Quarta-feira, Quinta-feira, Sexta-feira, Sábado e Domingo, o patinho Bernabé, a galinha Conchita, o galo Gigante, os perusinhos Dunga e Zeca, as galinhas Cacau e Castanha, os galos Sherlock Holmes e Chico.   

A Búzio era a galinha mais perfeita, uma bolinha de penas que parecia pintada a aguarela. Parecia mesmo um búzio, sobretudo quando veio para quinta com a sua irmã Conchita, que sobreviveu apenas duas semanas. 

Nunca me vou esquecer da sua ternura no olhar, mesmo a sofrer , o prazer que ela tinha em comer as uvas que lhe dava quando apanhava as outras distraídas e ficávamos ali as duas num momento de ternura e cumplicidade, na forma como se deitava junto a mim para adormecer. Na véspera, passei a manhã com ela, num cantinho do pomar, onde lhe cantei e trocamos olhares, mas depois foi pelo próprio pé para o capoeiro, mesmo a arrastar a asas, de onde nunca mais saiu Ainda jantou um pouco de farinha, mas não resistiu mais à severa anemia que a consumia há mais de cinco meses. 

Que seja, agora, mais uma estrelinha feliz e cheia de paz. 


Búzio a 21/8/2026
Fotografia de Leonor Madeira 











terça-feira, 1 de setembro de 2026

Carioca, o galo da ternura

Para quem diz que "os galos são agressivos", "os galos não servem para nada senão para cabidela", partilho dois momentos, de muitos outros, passados com o meu doce Carioca. 

Por norma, o Carioca recusa-se a ir até ao fundo do terreno, por mais que o incentive, ele chega a um ponto que volta sempre para trás.  

Um dia destes, quando eu desopilava no fundo do quintal, entregando ao vento, as tristezas causadas por uma sociedade cada vez mais egoísta e cruel, o Carioca não só chamou por mim sem parar, como veio ter comigo ao fundo de terreno, percebendo que eu não estava bem. Não saiu da minha beira, enquanto eu não voltei para junto dos meus penudinhos, que se deitaram à minha volta e até debaixo da minha cadeira de rodas, a fazer a sesta, num momento de cumplicidade, ternura e uma paz indescritível. 

Tanto o Carioca como os restantes penudinhos perceberam que naquele momento eu precisava exatamente disso, paz e amor. E eles não precisam de palavras, nem de coisas complicadas para me darem o que preciso. Fazem-no com amor puro e com o sábio silêncio repleto de cumplicidade e ternura refletida nos seus olhares. 

É impossível não ver a ternura no olhar do Carioca e, o seu canto é tão meigo, que por vezes até parece melancólico.  

Não é de festas, mas quer estar sempre ao meu lado e adora adormecer, enquanto lhe canto baixinho.  Espera pacientemente que eu consiga apanhar as uvas para lhe dar, comendo-as da minha mão com toda a delicadeza. 

Não, não lhe ensinei nada, o Carioca, assim como os outros penudinhos, faz tudo espontaneamente. Os meus penudinhos têm a sensibilidade que é cada vez mais rara nos ditos "racionais". 

Noutro dia, o Carioca apanhou um raminho seco e veio oferecer-mo. Há palavras para isso? 


Carioca | foto de Rita Micaelo, 16/8/2026
É impossível não ver ternura neste olhar