Na manhã de 8/9/2026, reparei que a patinha Micas passou o tempo todo debaixo dos arbustos da
Avenida dos Galos. Pensei que estivesse confortável, abrigada do calor, ou estivesse triste, chateada com alguma coisa. Passei a manhã por ali, dei-lhe folhas de videiras e pêra. Reparei também que recolhia palhinhas para pôr debaixo dela. Por momentos, suspeitei de um ninho, mas não dei importância, pois à tarde veio comer e tomar banho. No entanto, voltou para lá. Entretanto, à hora de recolher a minha mãe viu-se à nora para a tirar de lá. Foi quando viu o ninho muito bem feito
- Vê se tem ovo – disse eu à minha mãe.
- Não, não vejo ovo nenhum! – remungou – Patinha, tens que ir
para dentro, senão a raposa come-te! O que te está a dar hoje?!
Tirava-a e ela voltava para trás, dizendo qualquer coisa que
a minha mãe não estava a perceber. Acabou por pegar nela e levá-la à força para
capoeiro. Observei-a algum tempo no capoeiro para ver se alguém ou alguma coisa
a incomodava, mas estava tudo normal. Tinha de haver alguma razão para a
patinha não quer sair do ninho que construiu. Fui lá outra vez e pedi para a
minha mãe verificar melhor e... Sim, a pobrezinha tinha o ovo meio enterrado e
estava a tentar dizer que o tinha de proteger. A minha mãe pegou no ovo e
levou-o para o capoeiro, colocando-o no ninho.
-Era o teu ovinho que querias? Toma, anda para ninho.
A patinha ficou
contente e continuou-o a chocá-lo, em segurança, dentro do capoeiro.
No dia seguinte, ouvia-se a patinha a resmungar alto, o que
não é comum. Quando a minha mãe foi ver, era a garnija que estava ninho da
patinha porque também queria chocar o ovo. No entanto acabaram por criar um
vínculo de proteção dos ovos, que entretanto aumentaram para três e mais...
Porque enquanto a patinha saía para se alimentar e tomar banho, as galinhas iam pôr ovos no ninho dela.
Todos os dias a minha mãe ia pôr-lhe comida e água perto e
pergunta-lhe:
- Tens ovos que não são teus?
A patinha levantava-se para mostrar os ovos das galinhas, deixava tirá-los e, com o bico empurrava os dela para debaixo das suas penas. Com passar do tempo, a presença da garnija passou a incomodá-la e pedia à minha mãe para tirá-la de lá. Entretanto, a garnija pôs um ovo e a minha mãe deixou-a ficar a chocar, para ver se deixa a pata em paz. Mas depois tirou-os novamente.
- Se os ovos estiverem galados, em
setembro, teremos pequerruchos engraçados.- pensava eu.
Quando isso acontece, o importante é garantir a saúde da patinha e da garnija, verificando sempre que se alimentam e higienizam.
Entretanto, passaram os 35 de incubação, não nasceram patinhos e a pata Micas continuou a chocar pedindo para não lhe tirar os ovo. Mesmo que partisse o coração, para saúde da pata, teríamos de o fazer, aproveitando para desinfetar o capoeiro.
Contudo, não foi feito nada disso e, para surpresa de todos (humanos da quinta), entre 15 e 16 de setembro nasceram dois pintainhos, chocados secretamente pela garnija Pipoca Arrepiada.
Como foi que a Pipoca Arrepiada escondeu os ovos 21 dias, será um mistério indesvendável.
Entretanto, já estava mais que na hora a Micas sair do choco e, por mais cruel que pareça, teve de ser à força, caso contrário, acabaria por adoecer. Tirámos-lhe os três ovos estragados e expulsámo-la do capoeiro, desfazendo-lhe completamente o ninho, Foi extremamente duro ver o desespero da Micas a pedir os ovos e a tentar entrar no capoeiro e andar atrás dos ovos. Por outro lado, foi magnífico ver como os outros animais se protegiam em vez de entrarem em confronto com ela, respeitando a sua dor de perda. Foi o dia todo nisso e quando a recolhemos ao fim do dia, ela não só procurou pelo ovos, como pediu os pintainhos da garnija. Como muita infelicidade lá se acalmou e rapidamente reaprendeu a viver.
Não se deve deixar chocar sem ter a certeza de os ovos estão fecundados, porque o choco deixa a pata muito fraca. Ao sétimo dia de choco, com ajuda de uma lanterna, devemos verificar se os ovos estão fecundados e, caso não estejam, tem que se tirar logo a pata do choco, para que volte à vida normal e se alimente corretamente.
No caso da Micas, deu bem a volta e no dia seguinte, já regressou quase ao normal, na companhia das outras patas que pacientemente a ajudaram. Se assim não fosse, já tinha ponderado comprar uns patinhos bebés para substituir os ovos. Mas se virassem machos, depois seriam mais uma dor de cabeça, embora os adorasse à mesma. O importante era que a Micas ficasse bem e recuperasse peso, pois descobrimos que durante o choco, ela acumulava o milho no ninho em vez de comer. Era também importante que tomasse banho, para arrefecer a barriga do choco e eliminar as hormonas, de modo a perder o instinto de estar sempre no ninho. Felizmente, correu tudo melhor e mais rápido do que o esperado.
Quanto aos pintainhos, estavam de boa saúde e tinham um espaço vedado, dentro do próprio capoeiro, para que pudessem comer e circular se ser perturbados pelos outros animais. Ao que nasceu no fim do dia 15/9/2026 chamei-lhe Lua e ao mais novo Sol.
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