domingo, 27 de setembro de 2026

Quando os patos, afinal eram pintainhos

Na manhã de 8/9/2026, reparei que a patinha Micas passou o tempo todo debaixo dos arbustos da
Avenida dos Galos. Pensei que estivesse confortável, abrigada do calor, ou estivesse triste, chateada com alguma coisa. Passei a manhã por ali, dei-lhe folhas de videiras e pêra. Reparei também que recolhia palhinhas para pôr debaixo dela. Por momentos, suspeitei de um ninho, mas não dei importância, pois à tarde veio comer e tomar banho. No entanto, voltou para lá. Entretanto, à hora de recolher a minha mãe viu-se à nora para a tirar de lá. Foi quando viu o ninho muito bem feito

- Vê se tem ovo – disse eu à minha mãe.

- Não, não vejo ovo nenhum! – remungou – Patinha, tens que ir para dentro, senão a raposa come-te! O que te está a dar hoje?!

Tirava-a e ela voltava para trás, dizendo qualquer coisa que a minha mãe não estava a perceber. Acabou por pegar nela e levá-la à força para capoeiro. Observei-a algum tempo no capoeiro para ver se alguém ou alguma coisa a incomodava, mas estava tudo normal. Tinha de haver alguma razão para a patinha não quer sair do ninho que construiu. Fui lá outra vez e pedi para a minha mãe verificar melhor e... Sim, a pobrezinha tinha o ovo meio enterrado e estava a tentar dizer que o tinha de proteger. A minha mãe pegou no ovo e levou-o para o capoeiro, colocando-o no ninho.

-Era o teu ovinho que querias? Toma, anda para ninho.

 A patinha ficou contente e continuou-o a chocá-lo, em segurança, dentro do capoeiro.

No dia seguinte, ouvia-se a patinha a resmungar alto, o que não é comum. Quando a minha mãe foi ver, era a garnija que estava ninho da patinha porque também queria chocar o ovo. No entanto acabaram por criar um vínculo de proteção dos ovos, que entretanto aumentaram para três e mais... Porque enquanto a patinha saía para se alimentar e tomar banho,  as galinhas iam pôr ovos no ninho dela.

Todos os dias a minha mãe ia  pôr-lhe comida e água perto e pergunta-lhe:

- Tens ovos que não são teus?

A patinha levantava-se para mostrar os ovos das galinhas, deixava tirá-los e, com o bico empurrava os dela para debaixo das suas penas. Com passar do tempo, a presença da garnija passou a incomodá-la e pedia à minha mãe para tirá-la de lá. Entretanto, a garnija pôs um ovo e a minha mãe deixou-a ficar a chocar, para ver se deixa a pata em paz. Mas depois tirou-os novamente.  

- Se os ovos estiverem galados, em setembro, teremos pequerruchos engraçados.- pensava eu. 

Quando isso acontece, o importante é garantir a saúde da patinha e da garnija, verificando sempre que se alimentam e higienizam. 

Entretanto, passaram  os 35 de incubação, não nasceram patinhos e a pata Micas continuou a chocar pedindo para não lhe tirar os ovo. Mesmo que partisse o coração, para saúde da pata, teríamos de o fazer, aproveitando para desinfetar o capoeiro. 

Contudo, não foi feito nada disso e, para surpresa de todos (humanos da quinta), entre 15 e 16 de setembro nasceram dois pintainhos, chocados secretamente pela garnija Pipoca Arrepiada.  

Como foi que a Pipoca Arrepiada escondeu os ovos 21 dias, será um mistério indesvendável.

Entretanto, já estava mais que na hora a Micas sair do choco e, por mais cruel que pareça, teve de ser à força, caso contrário, acabaria por adoecer. Tirámos-lhe os três ovos estragados e expulsámo-la do capoeiro, desfazendo-lhe completamente o ninho, Foi extremamente duro ver o desespero da Micas a pedir os ovos e a tentar entrar no capoeiro e andar atrás dos ovos. Por outro lado, foi magnífico ver como os outros animais se protegiam em vez de entrarem em confronto com ela, respeitando a sua dor de perda. Foi o dia todo nisso e quando a recolhemos ao fim do dia, ela não só  procurou pelo ovos, como pediu os pintainhos da garnija. Como muita infelicidade lá se acalmou e rapidamente reaprendeu a viver. 

Não se deve deixar chocar sem ter a certeza de os ovos estão fecundados, porque o choco deixa a pata muito fraca. Ao sétimo dia de choco, com ajuda de uma lanterna, devemos verificar se os ovos estão fecundados e, caso não estejam, tem que se tirar logo a pata do choco, para que volte à vida normal e se alimente corretamente.

No caso da Micas, deu bem a volta e no dia seguinte, já regressou quase ao normal, na companhia das outras patas que pacientemente a ajudaram. Se assim não fosse, já tinha ponderado comprar uns patinhos bebés para substituir os ovos. Mas se virassem machos, depois seriam mais uma dor de cabeça, embora os adorasse à mesma. O importante era que a Micas ficasse bem e recuperasse peso, pois descobrimos que durante o choco, ela acumulava o milho no ninho em vez de comer. Era também importante que tomasse banho, para arrefecer a barriga do choco e eliminar as hormonas, de modo a perder o instinto de estar sempre no ninho. Felizmente, correu tudo melhor e mais rápido do que o esperado.

Quanto aos pintainhos, estavam de boa saúde e tinham um espaço vedado, dentro do próprio capoeiro, para que pudessem comer e circular se ser perturbados pelos outros animais. Ao que nasceu no fim do dia 15/9/2026 chamei-lhe Lua e ao mais novo Sol. 
Mas nem tudo foram rosas, pois, no dia 18, a água entornou-se no ninho e o Sol quase se afogou. No entanto, a minha mãe chegou a tempo. Trouxe-o para casa, envolveu-o numa toalha e aqueceu-o ao sol, dentro de um caixa de sapatos. Depois de recuperado, devolveu o Sol à Pipoca que, depois de o ouvir piar e o ver comer, acolheu-o novamente. Enquanto estive moribundo, rejeitou-por não ter como salvá-lo e ter de proteger o outro. Desde então a garnija rejeita palha e ninhos fechado, preferindo estar em cima saco do milho no chão. É uma mãe exemplar, sempre preocupada em ensinar e alimentar os pequeninos, dando-lhe até grão a grão o arroz e partindo os legumes em pedaços pequenos para que eles possam comer em segurança. É impossível não se ficar encantado e olhar para a doce Pipoca Arrepiada e os seus pequerruchos. O Carioca é um dos que está sempre a espreitar os pequenotes. 

Mas quem são as mamãs e os papás biológicos das duas bolinhas fofinhas encantadoras?! Teremos de esperar que cresçma para ver se descobrimos parecenças. No entanto, mãe é aquela que cuida, e a Pipoca é uma mamã espetacular que vive para os dois pintainhos, sem se importar se são dela ou de outra galinha. 

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