O Caderno da Rita Cuca é um cantinho para partilhar pensamentos e curiosidades do dia-a-dia de um mundo cada vez mais surpreendente. Divirta-se! Nota: AS NOVAS MENSAGENS ESTÃO A SEGUIR À PRIMEIRA.
domingo, 27 de novembro de 2022
sexta-feira, 11 de novembro de 2022
Os tsurus de Sadako Sasaki
Neste Dia Mundial do Origami deixo a minha humilde homenagem a Sadako Sasaki, a menina de 12 anos, vítima de leucemia por causa da bomba da Hiroshima, em 1945.
Com fé na antiga lenda japonesa, durante a doença, Sadako dedicou-se a fazer mil tsurus (grous, aves sagradas da cultura japonesa), conseguiu fazer 646 mas a morte levou-a antes de os completar.
No entanto, os seus amigos de escola fizeram questão, não só de completar os mil tsurus, como angariaram fundos para que fosse erguido um momento escultórico, em sua homenagem, apelando à paz no mundo, para que não hajam mais vítimas inocentes.
Desta forma, o tsuru tornou-se um símbolo da paz no mundo, para além de ser um dos origami mais populares da cultura japonesa, que simboliza sorte, saúde, longevidade e fortuna.
Inicialmente, os tsurus era elementos decorativos, mas depois passaram a estar associados à oração, estando sempre presente nas comemorações, como casamentos, aniversários, nascimentos, entre outras.
É também hábito japonês, oferecer tsurus aos amigos e entes querido, desejando-lhes assim, sorte, saúde, longevidade, fortuna e outras coisas positivas para a vida.
terça-feira, 1 de novembro de 2022
Pintando árvores em tempo de pandemia
Enquanto a humanidade lutava escondida contra um vírus invisível
Lá fora, a Natureza florescia cheia de graça e alegria
Mostrando, com a sua ternura de mãe, que tudo é vencível
Mostrando que depois de qualquer tempestade de novo renascia
Dando-nos amor, dando-nos vida
Mas o Homem sem sentimento
Para ver a sua ganância servida
Não lhe faz qualquer agradecimento
Destrói florestas e mares, destrói a vida de tantos seres
Como se deles não precisasse
Como se fossem coisas sem vida, nem amores
Como se uma sábia árvore de um objeto se tratasse
Por isso pinto árvores, verdadeiras fontes de vida
Símbolo da beleza e da esperança
Torcendo para que o Homem troque
As pedras que lhe enchem o peito e a taça
Por sementes da quais renascerão florestas e bosques
É urgente preservar e plantar árvores
Porque com elas salvaremos com certeza
Com todas as suas formas e cores
A única e insubstituível Grande Mãe Natureza
Rita Micaelo Silva
Outubro, 2022
terça-feira, 25 de outubro de 2022
Tobii, controlar o mundo com o olhar
A Tobii é uma tecnologia que permite a interação com o computador,
utilizando apenas o olhar.
Trata-se de uma tecnologia sueca ainda pouco conhecida em Portugal
que, para além ser um brinquedo interessante para os amantes de jogos de
computador, é uma ferramenta brilhante para pessoas com mobilidade reduzida que
têm dificuldade a interagir com dispositivos físicos como o rato ou teclado, para
trabalhar com o computador.
Com esta tecnologia o utilizador com mobilidade reduzida pode
desempenhar todas as tarefas que um utilizador comum, sem esforço físico e com
muito mais rapidez do que com qualquer outro sistema.
De acordo com a minha experiência pessoal, posso
inclusivamente dizer que a Tobii permite uma precisão dificilmente alcançável com
os outros dispositivos, graças ao sistema de infravermelhos (um singelo
aparelho do tamanho de uma esferográfica, que se prende na margem do monitor
com um pequeno íman) que segue o olhar do utilizador. Desta forma, o rato passa
a ser o olhar do utilizador, bastando fixar um ponto para fazer clique e usar o
teclado virtual para escrever.
Já tinha experimentado outros sistemas de controlo do computador através do olhar, mas recorriam ao uso de uma câmara, o que, para além de terem muito pouca precisão, faziam com que utilizador perdesse o controlo do computador de cada vez que desviasse o olhar do monitor. Daí eu nunca me ter adaptado a nenhum desses sistemas existentes há mais anos.
Com o Tobii o utilizador só calibra o olhar apenas uma vez, no
momento da instalação do software, regula as definições de acordo com as suas
necessidades específicas e, depois fica sempre pronto a utilizar, podendo desviar
o olhar sempre que quiser, sem nunca perder o controlo do computador.
A Tobii permite ainda o controlo ambiental (interação com eletrodomésticos
como televisão, telemóvel, estores, etc) e também já vi uma cadeira de rodas elétrica
a ser controlada com o olhar.
Resumindo e concluindo, com a Tobii não há limites!
Para quem não sabe, nasci com Paralisia Cerebral, tendo por isso, 97% de incapacidade, o que faz com que tenha de recorrer à tecnologia para poder levar uma vida normal.
Desde 2016 que não uso capacete/ponteiro (companheiro fiel
desde os meus oito anos, com o qual fiz todo o meu percurso académico, concluí
o mestrado, em 2010 e comecei a trabalhar) para interagir com o computador,
faço-o, apenas com o meu olhar (como podem observar no vídeo acima).
A tecnologia Tobii libertou-me do capacete, que me estava a
causar problemas graves na cervical. Deste modo reduzi significativamente as
minhas dores no pescoço e cabeça, assim como melhorei muito a minha rapidez de
interação e eficácia nas tarefas diárias. Apesar das lesões serem graves e de me
causaram muito desconforto, ainda consigo continuar a trabalhar, graças à Tobi.
Aqui ficam algumas pinturas e desenhos digitais, que tenho
feito nos tempos livres, com a Tobii.
domingo, 2 de outubro de 2022
A Velhinha das Pombas da Ponte D. Luís
Jeremias nasceu na rua das Carquejeiras, no Porto.
Tal como os outros rapazes, nascidos nas primeiras décadas
do século XX, costumava brincar naquela zona, onde avós, mães, tias, subiam a
longa e penosa rampa, carregadas de carqueja, para alimentar a cidade, que
delas fazia questão de se esquecer, na sua miséria.
Entre as suas brincadeiras, Jeremias gostava também de
observar a paisagem, com alma de poeta. Aliás, esta era a sua alcunha, o
"Poeta". Aquela paisagem do deslumbrante rio Douro, recheada de
mistério, fascinava-o.
Mas era a ponte D. Luís, o elemento de eleição do pequeno
Jeremias. Não só pela sua imponente beleza, mas sobretudo por causa de um
acontecimento que se repetia sempre no mesmo dia, anualmente.
Desde que se conhecia, Jeremias lembrava-se de ver uma
velhinha, que naquele determinado dia, descia, todos os anos, à ponte, onde
pendurava uma pequena pomba de papel.
Jeremias observou várias vezes o ritual da velhinha, de tal
forma, que acabou por fixar o dia preciso.
Por volta dos seus dez anos, o rapazinho resolveu
aproximar-se da velhinha, no momento em que ela, com as suas mãos já muito
trêmulas, atava na grade da ponte, um cordel que tinha na ponta a pomba
branca feita de papel.
- Desculpe... Porque está a pendurar uma pomba de papel
aí?
Com um terno sorriso, enquanto terminava de dar o nó, a
velhinha respondeu ao garoto.
- Faço isso desde o meu primeiro ano de vida. Nos primeiros
anos, vinha pela mão do meu pai, mas conforme fui crescendo, passei a vir
sozinha, todos os meus aniversários, pendurar uma pombinha branca, para que
esta me realize o desejo, assim que o vento a leve a voar por esses céus
imensos.
- Desejo? – perguntou o menino, com o olhar a brilhar de
curiosidade.
- Sim, peço à pomba que me traga uma única coisa, que quem a
tiver, tem tudo na vida.
- O que é?
- É paz, meu pequeno, paz... − respondeu a velhinha, com uma
festa no cabelo desalinhado do Jeremias.
E assim, a velhinha retomou o caminho de volta ao morro, no
seu passo lento e corcovado, apoiada numa tosca bengala, enquanto que o
Jeremias, ainda ficou, um bom pedaço, a ver a pomba a baloiçar com o
vento.
No ano seguinte, Jeremias voltou à ponte, onde esperou a
velhinha, que viria pendurar a sua pomba branca.
No entanto, as horas passaram e a velhinha não
apareceu.
Jeremias soube então, que a poucos dias de completar o seu
centésimo aniversário, a velhinha tinha voado para a sua eterna
paz. Faltava uma pomba a para completar o bando, que ao longo de um
século, tinham voado, uma a uma, da ponte D. Luís, para se juntarem a algures,
na terra dos desejos.
O pequeno Jeremias não quis deixar o bando incompleto e,
nesse dia, amarrou ele próprio uma pomba de papel, na grade da ponte.
Quando terminou o nó, o menino olhos para o lado e encontrou
uma pomba branca verdadeira que, passado instantes, bateu asas e voou em
direção ao céu dourado pelo sol, onde se juntou a um numeroso bando.
Jeremias sorriu e, a partir daquele dia, passou a
pendurar, todos os anos, uma pombinha de papel na grade da ponte, continuando a
ser assim o ritual da Velhinha das Pombas da Ponte D. Luís.
Rita Micaelo Silva
2020
sábado, 1 de outubro de 2022
Família Gerberas
Lá num cantinho do meu quintal, vive uma simpática família
de gerberas.
Idosos que vergam sob o peso da vida, mas continuam belos e
com o coração cheio de memórias.
Crianças ávidas das histórias dos idosos cheios de
sabedoria.
Adultos que vivem um dia de cada vez, sem pressas, criam
memórias, seguem os passos dos mais velhos, tomando-os como faróis das suas
vidas.
Adolescentes que imitam os adultos, correm atrás de sonhos,
acreditando poder vir a ser tão bons ou melhores do que os seus antepassados.
E bebés inocentes que só querem o amor e proteção de todos
os outros.
E assim, tudo cresce e vive tranquilamente, respeitando o
lugar de cada um e aprendendo todos juntos.
Olhando para aquele cantinho do meu quintal, fico a imaginar
como seria bom que a civilização humana fosse como a família Gerberas...
domingo, 25 de setembro de 2022
Um Take Away para Abelhas, será boa ideia?
Geralmente, não costumo comentar nas redes sociais e, muito menos quando se trata de disparates, mas, há dias, li um post, ao qual não resisti em comentar.
Confesso que nunca gostei de redes sociais, que têm
contribuído não só para a desinformação, mas também para a preguiça de ler / escrever
e isso, contribui para a regressão das funcionalidades do cérebro humano e da
capacidade de um pensamento complexo. O que é perigoso, porque um indivíduo incapaz
de pensar pela sua própria cabeça é um Indivíduo vulnerável, facilmente
manipulável.
Uma sociedade manipulada, como se tem vindo a verificar ao
longo da história da humanidade, não tem grande resultado, antes pelo contrário.
Por isso, resolvi contrariar essa tendência para a preguiça de pensamento e
recomecei a escrever neste meu velho blogue, para quem quiser, pelo menos,
fazer algum exercício aos neurónios, através da leitura de mais do que uma ou
duas linhas de palavras, que é o máximo que, nos dias de hoje, se consegue ler
nas viciantes redes sociais, muitas vezes sem interesse e cheias de erros
ortográficos.
Mas, vamos então ao tema desta publicação: Um take away para
abelhas.
Daria um título engraçado para um conto infantil, sem
dúvida! Mas não, este foi o título que
me foi veio à ideia, ao ler um apelo feito nas redes sociais para que
alimentassem as abelhas, durante o inverno, com uma tigela de raspas de maçã e
água, para compensar a escassez de alimentos. Pretendiam eles, assim, ajudar a
combater a extinção das abelhas. A intenção é boa, mas será que é viável e
eficiente?
Ora, se eu fizesse isso no meu quintal, a papa de maçã
(porque maçã raspada em água, rapidamente virava papa, para além de oxidar e
ganhar bolor) teria vários clientes desde ratos, gatos, pássaros, larvas, entre
outros. Ou seja, abelhas provavelmente nem chegariam a tempo de a provar o
prato para elas preparado.
Depois há outro pormenor que quem apelou ao take away para abelhas se esqueceu: as abelhas não dispõem de guarda-chuvas, sobretudos, nem
de automóveis para se deslocarem ao take away, nos rigorosos dias de inverno. E
também não usam telemóvel para mandar vir a refeição à colmeia.
Ao contrário do que muitos possam pensam, a razão pela qual
as abelhas produzem mel, trabalhando arduamente durante todo o verão, não é de
todo para satisfazer o desejo do ser humano de barrar o pão com mel, ao pequeno-almoço.
As abelhas produzem mel para satisfazerem as suas próprias necessidades, para as suas subsistências, sobretudo nos meses de inverno, em que os alimentos são mais escassos e as temperaturas são muito baixas, às quais não resistiriam, caso tivessem que andar a voar de um lado para o outro. Até porque também não conseguiriam voar de um lado para outro debaixo de chuva. Logo o mel é suficiente para aguentarem o inverno até à próxima primavera.
O
mel em excesso pode ser dispensado para os seres humanos, mas só o excesso,
caso contrário a colmeia dificilmente sobreviverá. Por isso é que os apicultores alimentam as abelhas, durante o inverno, com soluções açucaradas (que não podem ser preparadas com um açúcar qualquer, porque podem causar disenteria), para contrabalançar o fornecimento das colónias e estimular criação das ninhadas
O metabolismo da abelha está programado para que seja assim
e, deste modo, ela pode ter o seu ciclo de normal.
A Natureza é perfeita, nós é que estragamos tudo quando
tentámos intervir, mesmo que com boas intenções. Ou seja, a Natureza não foi
feita para ser domesticada, manipulada pela humanidade e, insistência do Homem
em querer dominar só tem tido mau resultado. Até porque a grande maioria das espécies
são muito mais antigas do que a humanidade.
Sobre o assunto recomendo os livros, de Peter Wohlleben. O livro “A Vida Secreta dos Anima" tem
inclusivamente um capítulo dedicado à abelha, explicando como funcionam as
colónias de abelhas.
As abelhas estão preparadas para sobreviver a todas as
estações, o problema das abelhas é a destruição dos seus habitats naturais (sem esses as abelhas, nem sempre conseguem recolher mel suficientes para sobreviverem ao inverno) e os
inseticidas.
Apesar de não ser propriamente entendida em biologia, penso
que alimentar abelhas, como se fossem animais domésticos, não faz muito
sentido, só as poderá vir, futuramente, a prejudicar, porque alterar o
metabolismo do animal, pode levá-lo à morte, tal como li nos livros de Peter
Wohlleben, onde está tudo bem explicado, com vários exemplos concretos.
Se querem ajudar abelhas, não as matem, com medo das picadelas, plantem diversas espécies de flores que floresçam em diferentes épocas do ano, não destruam florestas nem espaços naturais e deixem-nas viver o ciclo da vida em paz. Este é o take away que a abelhas gostam e precisam: espaços naturais com plantas, flores e árvores, bem como água limpa. Reforço, varandas com vasos de plantas floridas, jardins e quintais com flora diversificada, livres de inseticidas e água limpa (água da chuva é ideal), são excelentes take aways para abelhas e insetos polinizadores, entre outros animais.
Tenho várias espécies de abelhas no quintal e nada faço,
simplesmente delicio-me a vê-las tranquilas na sua vidinha. A verdade, é que têm
aparecido cada vez mais abelhas e outros simpáticos animais, desde aves e
insetos, entre os quais lindas borboletas de diversas espécies.
Na minha humilde opinião, pelo que tenho lido e observado, a
melhor opção para ajudar as abelhas e a Natureza em geral é deixarmos de quer
domesticá-las a nosso bel-prazer, deixarmos que a coisas aconteçam à sua
maneira e no seu ritmo.
No entanto, os maravilhosos livros de Peter Wohlleben, ajudam
o leitor leigo em biologia, a perceber o perfeito funcionamento da Natureza num
todo, de uma forma muito acessível e entusiasmante, fazendo-o refletir sobre
como devemos agir para travar a sua destruição.
Quem ler esses livros, dificilmente volta a olhar para a
Natureza como mera paisagem, sendo quase impossível não mudar os comportamentos
para com esta.
terça-feira, 20 de setembro de 2022
O teu Castelo Amarelo (dedicado ao meu pai João Carlos Fernandes Silva)
Junto de fotos e um caracol de
cabelo
Que desenhaste ainda menino
P'rá princesa que viria a
caminho
Lá me esperas desde bem cedinho
Preparando tudo com amor e
carinho
Esse teu misterioso castelo
Desenhado e pintado de amarelo
Que tem duas torres, uma porta
E bem no alto uma bandeira torta
Não consta em nenhum dos atlas
Nem nos mapas dos piratas
Fica num lindo reino encantado
Onde reina paz e amor por todo o
lado
Há jardins cheios de diversas
árvores
Animais, duendes, fadas
fantásticas
Entre muitas outras criaturas
mágicas,
Peripécias sem conta eu já
passei
E outras tantas sei que passarei
Entre derrotas, vitórias e
conquistas
Tormentas e charadas com poucas
pistas
Mesmo não sendo perfeita não
desistirei de te reencontrar
Ansiosa por te abraçar, sem nunca
mais te largar
Não te esqueças do lanchinho de
bonecas
Com leite, docinhos e
panquecas
Para quando eu aí chegar
Ao teu colo me sentar
Um pinguinho tomar e histórias escutar
Sem ter mais hora para terminar
Nesse teu castelo amarelo
Onde tudo é tão incrível e belo
Que desenhaste ainda muito
menino
P'rá princesa que viria a
caminho
Lá me esperas desde bem cedinho
Preparando tudo com amor e
carinho
Rita Micaelo Silva
Junho de 2022
Desenhos de João Carlos Fernandes Silva (1967/70)
domingo, 4 de setembro de 2022
Eu, as minhas árvores, o "Bambi" e “O Meu Pé de Laranja Lima”
Desde muito pequena que sempre fui apaixonada por histórias e livros. Já li muito, não o quanto gostaria, mas dos livros que mais marcaram foram o “Bambi” de Felix Salten e “O Meu Pé de Laranja Laranja Lima” de José Mauro Vasconcelos.
Dois livros que curiosamente só li, há muito pouco tempo, já
em adulta e em fases cinzentas da minha vida.
Mais curioso ainda é o facto de um dos primeiros textos que
escrevi, mal aprendi a escrever, foi precisamente um diálogo entre um menino e
uma árvore, que ficaram grandes amigos. Lembro-me da minha mãe e da minha avó
Teresa comentarem o facto de eu ter escrito aquele diálogo sem nunca ter lido “O
Meu Pé de Laranja Lima, que foi um dos meus livros favoritos do meu pai. A
verdade é que escrevi o tal diálogo, com oito ou nove anitos e que, agora, com 37 anos, me comporto como
o personagem ZéZé que falava a sua árvore como se fosse gente, em vez de um mero
objeto decorativo, dando-lhe um nome – Minguinho.
Pois, foi entre o dia 26 e 27 de agosto de 2022, depois de
ter visto o título num concurso de cultura geral, que resolvi procurar e ler o livro
“O Meu Pé de Laranja Lima” pela primeira vez na vida. É óbvio que sempre ouvi
falar desta obra de referência mundial, inclusivamente adaptada para cinema,
teatro, etc. No entanto, diziam que era uma história triste e, como quando se é miúdo
não gostamos de coisas tristes, nunca me deu para a ler.
Também não gostava muito do Bambi, achava-o extremamente violento
e triste para crianças. Não estava muito fora da realidade, porque o Bambi não foi
escrito para crianças, mas sim para adultos, sendo um dos livros mais odiados
pelo Hitler.
Apesar do Walt Disney ter feito uma adaptação muito fiel ao
livro, ainda hoje muito popular no público infantil e não só, não há nada
melhor do ler o Bambi original.
Digo inclusivamente que o “Bambi” e “O Meu Pé de Laranja Lima” deviam ser obras de leitura obrigatória em todo mundo, porque uma fala da vida com um todo e o papel do Homem como parte integrante da Natureza (e não um ser superior a todos os outros), enquanto a outra fala do desenvolvimento do indivíduo dentro de uma sociedade desequilibrada.
Ao ler “O Meu Pé de Laranja Lima “, comecei logo por rever o meu pai na personagem principal, o Zézé, um menino com uma sensibilidade e inteligência fora de série, mas que se sente a pior pessoa do mundo porque estava sempre a ser castigado pela família, pelos mais velhos e até, na sua opinião, por Deus. Um menino de cinco anos a quem, cruelmente, roubaram a inocência e o mundo dos sonhos, mas que mesmo assim, teve sensibilidade para preservar o mundo imaginário do irmão mais novo, tendo consciência da importância disso para o seu desenvolvimento saudável e feliz. Está mais que provado que um indivíduo com uma infância infeliz dificilmente será capaz de encontrar paz interior e de transmiti-la ao outros, mas há quem o consiga. tal como o Zézé.
Não foi preciso muito para me rever a mim, à minha mãe e
tantas outras pessoas na personagem de Zézé.
Porque afinal quem é quem nunca se sentiu injustiçado pela
família ou pelo mundo, pela vida?! Quem nunca viu as suas expectativas a irem por
água abaixo, por culpa disso ou daquilo?
Acontece que na maioria das vezes esperamos muito mais dos outros,
esquecendo que eles também são humanos como nós, também os seus medos, as suas paranoias,
as suas tristezas, os seus sonhos, os seus dias maus e bons. Esquecemos que,
tal como nós, os outros também estão aprender sobre a vida e sobre eles mesmos,
por isso erram, cometem injustiça, descarregam a raiva e o desespero em quem não
tem culpa.
Às vezes até temos consciência de tudo isso, mas é mais fácil
atribuir a nossas infelicidades aos outros e inventarmos uma série de desculpas
esfarrapadas, em vez de enfrentarmos os nossos fantasmas pelos cornos e darmos
cabo deles para sermos felizes.
Deste modo, gera-se um círculo vicioso em que andamos todos às
turras uns contra os outros e pouco ou nada evoluímos enquanto comunidade humana,
pois em pleno século XXI, continuámos a usar a violência de todas a formas
possíveis e inimagináveis.
Estes dois livros mostram exatamente que neste mundo não há vilões nem vítimas, estamos todos no mesmo barco, somos todos meras formiguinhas no imenso universo desconhecido, não sabemos donde viemos, nem para onde vamos e, por isso somos frágeis, inseguros, inconstantes.
Deste modo, tudo será mais fácil quando nos tornamos cooperativos
em vez de competitivos. Mas isso só será possível quando cada um de nós encontrar
a sua paz interior, a aprender a gostar de si próprio e a respeitar pacientemente o processo de aprendizagem do próximo,
o que exige a capacidade de perdoar. Perdoar os outros e a nós próprios, o que
é ainda mais difícil, mas, é extremamente recompensador, quando conseguimos. Deste modo aprendemos a gostar de nós próprios e mais facilmente gostamos dos outros. O
perdão é a chave para quebrar o círculo vicioso da violência e que nos liberta
das amarguras/rancores, terríveis venenos capazes de nos destruir, se desses não nos
libertarmos. Por isso, perdoar é, para mim, o mais importante gesto de amor, para com os outros e sobretudo para connosco próprios.
Pelo menos foram estas as principais mensagens que tirei destes
dois livros que considero obras-primas da literatura pelo incentivo à compreensão,
respeito e paz entre todos o seres-vivos da Grande Mãe Natureza.
Recomendo vivamente a leitura do fantástico “Bambi” e “O Meu
Pé de Laranja Lima”, até mais do que uma vez, porque descobre-se sempre mais
alguma coisa em cada leitura. Há livros que devem ser lidos na altura certa,
mas como não sabemos qual é a altura certa, a solução é lê-los mais do que uma
vez na vida. Aliás, não sei como nem porquê os livros vêm ter connosco na altura
certa, pelo menos comigo tem sido assim.
Rita Micaelo Silva
setembro, 2022
domingo, 28 de agosto de 2022
Um inesquecível mergulho nas maravilhas da Curia
Após um período particularmente controverso e doloroso, eu e a minha mãe decidimos fazer uma semana de termas, para recarregar energias.
Fomos então para o Hotel das Termas da Curia.
Nunca tínhamos feito termas e confesso que não estava lá muito entusiasmada, porque tinha uma ideia errada daquilo que são as termas. Pensava
encontrar o género de uma clínica onde todos se queixam das suas maleitas, mas
afinal é completamente diferente. Ou melhor, é tudo menos isso.
Aliás aquilo que me convenceu a deixar o meu querido quintal
por sete dias foi precisamente o magnífico parque cheio de árvores centenárias.
O que eu não sabia era que o hotel ficava mesmo dentro do imenso parque.
Logo no almoço bufete, bastante diversificado, saboroso e
saudável, com excelentes pratos de chef (ainda mais sofisticados ao jantar, mas
sempre equilibrados), conheci a imensa variedade de pessoas que frequentam
aquele paraíso, desde bebés a idosos, a conviverem harmoniosamente, como se de
uma grande família se tratasse.
Sim, não é habitual que haja tanto convívio nos hotéis,
aliás eu até nem gosto de hotéis e nunca me senti tão em casa como no Hotel das
Termas da Curia.
Há muito que me sentia tão mimada por desconhecidos, parecia
até que era uma princesa, com quem quase todos quiseram meter conversa e trocar
contatos. (Para todos um grato abraço)
Desta forma, os “desconhecidos” tornaram-se rapidamente bons
amigos que fizeram com que a nossa estadia naquele paraíso, onde reina a doce
paz da luxuriante natureza, fosse ainda mais mágica, inesquecível, inspiradora,
enriquecedora e, sobretudo, rejuvenescedora.
Para além de relaxar, também aprendi muito, com as pessoas fantásticas que fui conhecendo, cada uma com as suas interessantes histórias. A primeira inesquecível surpresa aconteceu logo que cheguei ao hotel, quando a querida D.ª Judite, uma senhora de 97 anos, a quem o AVC não lhe levou a música da memória, nos presenteou com lindíssimos acordes de Beethoven e Chopin. A D.ª Judite foi, então, a primeira fadinha que conheci, com os seus lindos olhos azuis, naquele hotel paradisíaco.
No entanto, o paraíso entende-se para além da muralha, pois
a população do pequeno lugar da Curia é igualmente hospitaleira e calorosa. Não
são muitas as pessoas que se veem pelas ruas, bem cuidadas, com boas
acessibilidades e sempre, sempre cheias de vegetação, mas o certo é que toda a
gente se cumprimenta com um sorriso, mesmo que não se conheçam.
Confirmei então a minha teoria de que os bons ares da natureza
fazem com todos vivam mais saudáveis, mais calmamente e, naquele lugar, não há
pressas para nada, o tempo passa tranquilamente, ninguém sofre de stress e,
talvez por isso, as pessoas sejam mais humanas e afáveis. Viver em sintonia com
a natureza é a chave para viver melhor.
Já para não falar do poder das águas termais que, aliado aos
vários tratamentos feitos por excelentes profissionais incansavelmente
dedicados aos seus utentes, tão bem faz ao corpo e à alma.
Pelo menos eu saí de lá muito mais leve, sem as contraturas
que me punham as costas curvadas e doridas. Foram tratamentos intensos, que me
deixaram toda partida, mas que agora revelam excelentes resultados. Para além
das melhoras físicas, esta estadia fez também com que eu me sinta muito mais
relaxada, tranquila, com outra energia para enfrentar os problemas (que
anteriormente me pareciam megalómanos) e sobretudo com uma nova esperança na
humanidade, graças às lindas “fadas” e “duendes” em figura de gente que lá conheci.
Tão boa foi a experiência na Curia, que a minha mãe até quer
ir para lá viver e eu fiquei triste por me vir embora, coisa que nunca
aconteceu em férias nenhumas. E o mais engraçado, é que os funcionários do
hotel e das termas também se despediram de nós com uma lágrima ao canto do
olho, de tão ligados estavam às Ritas.
Nas termas da Curia ganhamos não só saúde física e mental, mas também uma nova família de amigos que nos deram tudo o que há muito precisávamos. Foi como mergulhar num belo mundo encantado, cheio de paz e boa gente. É indubitavelmente uma estadia que recomendo, pelo menos uma vez por ano, para relaxar e repor energia, sozinho ou em família.
Gostei de regressar a casa e ver que, no querido quintal, as
plantas cresceram e floresceram, mas a vontade de voltar ao paraíso encantado
do Hotel das Termas da Curia é mesmo muito grande.
Tanta é a vontade de volta de estar no paraíso, que regressei à Curia, para festejar o meu aniversário, onde fui novamente recebida com muitos mimos e ainda tive direito a bolo e champanhe, completando-se festa, com a ajuda do S. Pedro que nos deu um tempo maravilhoso para banhos de piscina, para além dos deliciosos tratamentos termais
Por isso, envio, aos amigos da Curia, um terno abraço e um
até breve.
Rita Micaelo Silva
Agosto, 2022
Fotografias de Rita Maria C Micaelo Silva
O teu lenço branco bordado
Era um lenço branco delicado
Tinha o teu nome bordado
Guardava-o junto ao peito destroçado
Depois de me teres deixado
O vento levou-mo de repente da mão
Quis roubar-me mais o pouco de coração
Mas nem um minuto hesitei então
Em correr atrás do lenço que nunca tocou o chão
Percorri toda a fria e triste cidade
Onde ninguém faz nenhuma caridade
Mas corri, corri a toda a velocidade
Atrás do lenço como uma verdadeira preciosidade
Então o teu lenço branco bordado
Ficou preso num velho galho entortado
Daquela árvore cuja altura deixa qualquer um atordoado
Mas que trepei até ao topo, mesmo desajeitado
Lá em cima da grande árvore adorada
Ao ver a mais bela e clara alvorada
Lembrei-me daquela manhã encantada
Em que te conheci e não quis saber de mais nada
Na copa daquela árvore percebi então
Que o teu lenço branco na minha mão
Era só uma pequena e terna recordação
Pois afinal não te perdi, eras o meu mundo, o meu coração
Rita Micaelo Silva
Agosto, 2022
terça-feira, 26 de julho de 2022
Avós
Aos meus avós (a quem devo muito do que hoje sou) e a todos os outros, sobretudo àqueles que, por diversas razões, não podem dar o seu amor aos netos e àqueles que temem pela vida dos seus netos que combatem em guerras sem sentido, de quem muitas vezes não têm notícias.
sexta-feira, 22 de julho de 2022
A minha curiosa família de números
Por hoje ser Dia Mundial do Cérebro, lembrei-me de uma curiosidade que ocorre no meu e que nem eu sei porquê.
Desde que conheço os números, sempre os vi como uma família,
ou melhor… três que se unem numa só.
Passo então a explicar:
O “1, filha do “9” e do “0” e irmã do “8”, é casada com o “2”,
filho do “3” e irmão do “4. O “4” é namorada do “5”, filho do “6” e irmão do “7”,
que é o melhor amigo do” 8”.
Todos juntos, formam uma companhia de teatro, chamada Matemática,
onde, juntamente com outros símbolos, representam infinitas combinações de números
e de operações.
Porque que penso assim? Não faço a mínima ideia e também não
me preocupo em desvendar o mistério, porque afinal, com fantasia ou sem fantasia,
sempre fui boa aluna a matemática.
Sabemos muito pouco sobre o que gira à nossa volta, embora tenhamos
a mania de ser os mais inteligentes de todos os seres, quando na verdade nem a
nós próprios nos conhecemos.
O cérebro é sem dúvida o maior mistério o Homem, um órgão
extraordinário que na minha opinião é muito mal aproveitado, ou seja, é mais
utilizado para o mal do que para o bem.
sábado, 9 de julho de 2022
O real imaginário
Fernando Pessoa escreveu que “As figuras imaginárias têm mais relevo e verdade que as reais”.
Eu acrescento que há lugares, criaturas e pessoas que nunca desaparecem ou morrem, apenas viajam para nosso imaginário. Assim como há lugares e pessoas que viajam para o nosso imaginário, apenas pelo que outros nos contam ou que estão, foram simplesmente imaginadas.
Por exemplo, eu não cheguei a conhecer o meu bisavô Joaquim e só fiz uma visita à Costeira (casa de família do meu bisavô) uma única vez, quando tinha apenas três ou quatros anos de idade, da qual não me recordo. No entanto, cresci sempre com a Costeira no meu imaginário, por causa das histórias que a minha avó Teresa e bisavó Matilde me contavam.
Sei que assim que muitos veem, uma "triste solitária", só porque não passo a vida no arejo. Lamento desiludi-los porque, na verdade, sou a "triste" mais feliz do mundo quando estou na minha agradável companhia.
Para ser sincera, nem sei em que se baseiam para fazerem este tipo de observação, até porque tenho o hábito nem qualquer interesse em publicar a minha vida nas redes sociais, saio quando quero, com quem quero e ninguém tem nada a ver com isso.
Simplesmente adoro o sossego, a natureza e o silêncio cheio de música e histórias. Preciso disso para criar, fazer aquilo que gosto e viver sem pressa nem confusões. É assim que encontro a minha paz e felicidade.
E no entanto, tenho plena consciência da realidade, pois estou sempre atenta ao que se passa à minha volta, ao contrário de muitos acelerados que andam por aí atrás de algo que não sabem o que é, nem onde ou como encontrar.